Super Mama Djombo e o espírito da revolução

646px-Location_Guinea_Bissau_AU_Africa.svg

Localização de Guiné-Bissau no continente africano

600_388367502

Amilcar Cabral

Durante a sangrenta Guerra pela Independência da Guiné-Bissau (1963-1974) se dizia, entre os guineenses, que existia um espírito que estava defendendo os soldados de Guiné contra os portugueses. A este espírito protetor os combatentes deram o nome de Mama Djombo.

Guiné-Bissau é um país da África que foi, durante séculos, colonizado pelos portugueses, uma situação bem parecida com a do Brasil. Por essa razão uma das línguas falada pela população é a portuguesa. As semelhanças com o Brasil param por aí também. Enquanto no Brasil a família real portuguesa concedeu a independência para manter-se governando o país, ainda no século XIX, em Guiné-Bissau essa independência foi conquistada em uma guerra contra Portugal que durou 11 anos. Já falamos sobre as guerras coloniais de Portugal em outro post.

Fundado por Amílcar Cabral em 1956, o Partido Africano para a Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC), de inspiração marxista, se empenhou na organização da luta pela independência nas colônias portuguesas da África Ocidental. Envolvido em ações pacíficas desde a sua fundação,  em 1959 o PAIGC surpreende os portugueses ao organizar uma grande greve dos estivadores no Porto de Bissau. A polícia política da ditadura de Portugal (PIDE) reprime violentamente a greve causando mais de 50 mortes. As autoridades tentaram culpar o PAIGC por fomentar a discórdia entre os trabalhadores, mas o massacre causou enorme comoção entre a população local, aumentando o apoio ao Partido. Este incidente ficou conhecido como “o massacre de Pidjiguiti”. Neste mesmo ano Cabral e os demais membros do PAIGC se reúnem e concluem que a luta pacífica não era uma ferramenta eficaz na luta pela independência. A partir deste momento o PAIGC começa a considerar a luta armada como uma necessidade para alcançar a vitória.

115304603-2Foi durante essa guerra que surgiu o Super Mama Djombo, uma banda formada nos anos 60 por crianças (o mais novo tinha apenas 6 anos de idade), em um acampamento de escoteiros, em Guiné-Bissau. Após a independência de Guiné-Bissau, em 1974, a banda alcançou enorme popularidade no país. A banda era presença frequente na abertura dos discursos do presidente Luis Cabral e suas apresentações também eram transmitidas pela rádio nacional.

O Super Mama Djombo, cujo nome veio de um espírito protetor, ajudou a manter vivo o espírito da vitória no povo de Guiné-Bissau.

Super Mama Djombo – Na Cambança

Anúncios

José Afonso e a música que sinalizou a Revolução dos Cravos.

Casa de José Afonso em Coimbra, Portugal.

“Nesta casa viveu o trovador da liberdade José Afonso, o Zeca: Em esquina um amigo, em cada rosto igualdade o povo é quem mais ordena dentro de ti, ó cidade.

JOSÉ AFONSO FOI UM CANTOR, COMPOSITOR E MILITANTE DE ESQUERDA PORTUGUÊS CUJA OBRA TEVE PAPEL FUNDAMENTAL DURANTE A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS.

Zeca nasceu no dia 2 de Agosto de 1929 em Aveiro, Portugal, filho de um juiz e de uma professora. Neste local viveu até aos três anos, quando foi levado para Angola onde o pai era delegado do Procurador da República.

Em 1937 retorna à Aveiro mas parte para Moçambique ainda no mesmo ano, indo viver em Lourenço Marques (atualmente: Maputo), capital do país.

Em 1938 vai viver com seu tio, Filomeno, em Belmonte. Seu tio era fervoroso admirador do ditador de Portugal, Salazar, e incentiva o sobrinho a entrar para a Mocidade Portuguesa, que era a organização juvenil do Estado Novo português.

O Estado Novo foi uma ditadura antiparlamentar, autoritária e nacionalista iniciada em 1933 e derrubada somente pela Revolução dos Cravos em 1974.

Seus pais foram viver no Timor, uma colônia portuguesa na Ásia, em 1939. Lá foram presos pelos japoneses que ocuparam a ilha durante a segunda guerra mundial. Por um período de três anos Zeca Afonso não teve contato nem notícias dos seus pais.

GW500H286

Localização do Timor, antiga colônia portuguesa na Ásia.

Em 1948 Zeca completa o Liceu, que no Brasil equivale ao Ensino Médio. Em 1953 nasce seu primeiro filho e Zeca grava seu primeiro disco: Fados de Coimbra. Em 1955 completa o serviço militar obrigatório e pouco depois começa a lecionar.

O cantor participa com frequencia de festas populares e lança, em 1960, o álbum Balada do Outono. Em 1962 acompanha a crise acadêmica, uma revolta estudantil contra a ditadura que envolveu as principais universidades de Portugal. Essa revolta iniciou-se a partir de 1961, quando os estudantes reuniram-se para um jantar no qual a frase “queremos paz” ecoou em protesto contra a Guerra Colonial (guerra levada à cabo por Salazar para manter as colônias sob domínio português). A polícia apareceu, prendeu e espancou os estudantes, dando início à uma tensão que tomou conta das academias do país e estourou em 1962. A Guerra Colonial iniciou-se a partir de um levante popular nas colônias de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, em 1961, encerrando-se em 1974 com a Revolução dos Cravos e a libertação das colônias portuguesas.

Encontro de ditadores: Salazar, de Portugal, e Francisco Franco, da Espanha.

Encontro de ditadores: Salazar, de Portugal, e Francisco Franco, da Espanha.

Em 1963 completa a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas. No mesmo ano edita Os Vampiros e Menino do Bairro Negro, suas primeiras músicas de caráter político, sendo a primeira contra a opressão do capitalismo e a segunda inspirada na miséria do Bairro do Barredo, no Porto. Ambas foram incluídas no disco Baladas de Coimbra, que seria proibida pela censura. Os Vampiros e Trova do Vento que Passa viriam a se tornar músicas simbólicas na resistência anti-salazarista da época.

Entre 1964 e 1967 reside em Lourenço Marques, capital de Moçambique. Neste período atua como defensor dos ideais de independência da colônia portuguesa, o que acabou lhe causando problemas com a polícia política de Salazar.

Localização de Moçambique, no sul da África

Localização de Moçambique, no sul da África

Em 1967, já em Portugal, Afonso é colocado como professor em Setúbal, mas é expulso do ensino após um período de doença. Neste período o cantor mantinha contato com o Partido Comunista Português e com a Liga de Unidade e Acção Revolucionária, sendo preso pela PIDE (polícia política do Estado Novo). Para que seu nome não seja censurado dos jornais, ele começa a ser escrito ao contrário: Esoj Osnofa.

Em 1971 edita Cantigas de Maio. Em 1973 canta no III Congresso da Oposição Democrática e grava o álbum Venham mais Cinco. Prossegue apoiando várias instituições populares e continua sua militância política na Liga de Unidade e Acção Revolucionária. Entre Abril e Maio de 1973 esteve preso no Forte-prisão de Caxias pela PIDE/GDS.

Revolução dos Cravos

No dia 24 de março de 1974 uma reunião clandestina de capitães contrários à ditadura, que se organizaram no “Movimento das Forças Armadas”, decide derrubar o regime pela força.

Um mês depois um grupo de militares instala secretamente um posto de comando em um quartel de Lisboa. Às 22h55m a canção E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho é transmitida pela rádio, sendo um sinal para desencadear a primeira fase da operação. À 0h20m a canção Grândola, Vila Morena de José Afonso é transmitida pelo programa Limite, da Rádio Renascença, marca o início das operações que viriam a derrubar a ditadura portuguesa.

Em todo o país os militares se levantam contra o regime. O ministro da Defesa ordena que as forças sediadas em Braga avancem sobre o Porto, já tomado pelos revolucionários, mas os militares não obedecem às ordens e aderem à luta. A sede do governo português é ocupada nas primeiras horas da manhã. O chefe do governo é rendido ao final do dia, no Quartel do Carmo. Depois parte para o exílio no Brasil. Durante a operação toda morrem quatro pessoas, atingidas por disparos quando protestavam em frente à sede da polícia política.

Revolucionários retiram retrato de Salazar da parede

Revolucionários retiram retrato de Salazar da parede

No dia seguinte forma-se a Junta de Salvação Nacional, constituída por militares, que conduzirão um processo de transição sob um programa conhecido como “Programa dos três D”: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver.

As medidas imediatas da revolução foram a extinção da polícia política e da censura, a legalização dos sindicatos e dos partidos, a libertação dos presos políticos e o fim do exílio dos lideres da oposição. No dia 1º de maio os trabalhadores celebram em liberdade pelas ruas, pela primeira vez em muitos anos, juntando, só na cidade de Lisboa, cerca de 1 milhão de pessoas.

Período após a Revolução dos Cravos

Após a Revolução José Afonso, já livre da censura, segue atuando politicamente, realizando várias apresentações em apoio a diversos movimentos, tanto em Portugal como em outros países. Com a vitória da Revolução inicia-se, em Portugal, um período conhecido como Processo Revolucionário em Curso, que dura cerca de dois anos e do qual José Afonso tornou-se grande apoiador e admirador.

José Afonso

José Afonso

Durante o PREC são estatizadas as grandes empresas e levadas ao exílio personalidades identificadas com o Estado Novo. A Guerra Colonial se encerra e as colônias portuguesas da África e da Ásia se tornam independentes.

Nas eleições livres de 1975 para a Assembléia Constituinte o Partido Socialista alcança a maioria dos assentos. A assembléia elabora uma nova constituição, que será aprovada em 1976, e estabelece uma democracia parlamentar com eleições livres. Porém, no ano de 1976, o caminho socialista que a PREC estava tomando seria abandonado a partir de 25 de novembro de 1975.

Milton Nascimento: Quando o silêncio vale por mil palavras.

A tela de John Gast, pintada por volta de 1872 é uma representação do

A tela de John Gast, pintada por volta de 1872 é uma representação do “Destino Manifesto”. Na cena os nativos e animais selvagens são espantados pela civilização, representada pelos “pioneiros” estadunidenses, que constroem ferrovias e colocam cabos telegráficos pelo caminho.

Com a Guerra Fria se desenrolando ao redor do mundo, os Estados Unidos voltaram os olhos para as suas proximidades, o que incluía a América Latina.

Os Estados Unidos acreditam que foram “escolhidos por Deus” para conduzir todos os demais povos da América à civilização. Desde o século XIX o seu objetivo é transformar a América Latina em sua zona de influência política e econômica. Acreditam que todas as nações das Américas devem seguir sua liderança e expressaram isso em duas aberrações teóricas às quais deram o nome de “Doutrina Monroe” e “Destino Manifesto”. No discurso de posse do presidente James Buchanan, em 1857, isso fica explícito:

“A expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça (…) e nada pode detê-la”.

Os Estados Unidos também expressaram essas convicções na prática durante quase todo o século XX. Para conseguir mão de obra barata para suas empresas e acesso fácil à matéria-prima, os EUA incentivam e financiam todo tipo de governo na América Latina, desde que lhes garantam acesso ao que desejam. Existe uma longa lista de ditadores latino-americanos que foram apoiados pelos EUA, em praticamente todos os países do continente. Símon Bolívar (1783-1830), que liderou a Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela à independência, dizia o seguinte sobre os Estados Unidos, já no século XIX: “Os Estados Unidos parecem destinados pela providência a encher a América de miséria em nome da liberdade”.

Uma das maiores crises  entre os EUA e a URSS durante a Guerra-Fria se iniciou no momento em que uma guerrilha vitoriosa derrubou um destes ditadores apoiados pelos Estados Unidos: Fulgêncio Batista, ditador de Cuba. Enquanto Batista fugia para Miami, em 1959, Fidel Castro e Che Guevara, os líderes da guerrilha, entravam triunfantes na capital Havana. Para se ter uma ideia da situação que isso representava para os EUA, a “Plaza de La Revolución” em Havana, Cuba, com painel do Che Guevara e tudo, fica a apenas 170 quilômetros de Key West, no Condado de Monroe, Flórida, Estados Unidos. Isso é menos que as distâncias de Porto Alegre a Pelotas e quase a mesma distância que separa o Rio de Janeiro da cidade de Búzios.

Essa proximidade, antes do triunfo do socialismo, tornava Cuba praticamente uma “casa de praia” dos estadunidenses. Estes passavam férias em Cuba e gastavam muito dinheiro em seus cassinos e hotéis. Muito pouco deste dinheiro ficava em Cuba, já que os donos dos hotéis e cassinos eram, em sua maioria, também estadunidenses. Enquanto isso os cubanos viviam em condições de extrema pobreza e repressão, sendo a impiedade de Fulgêncio Batista reconhecida até mesmo pelo embaixador estadunidense em Cuba.

Após a queda de Batista e a vitória dos guerrilheiros, os EUA tentaram recuperar o controle de Cuba através de ações furtivas e incentivos a grupos contra-revolucionários, contrariados com a reforma agrária e com a estatização dos hotéis e das grandes empresas. Todas essas tentativas foram frustradas pelo exército cubano, já sob controle dos revolucionários.

No início dos anos 60, com a reação armada às ditaduras apoiadas pelos EUA no Peru, Guatemala, Nicarágua, Bolívia, Argentina e em outros países, os EUA apertaram o cerco contra a América Latina. Sob o discurso de “acabar com a influência comunista”, usando Cuba como pretexto, os EUA lutavam para garantir acesso à matéria-prima barata e aos trabalhadores latino-americanos, acostumados a baixos salários e longas jornadas.

Isso aconteceu no Brasil também. Nessa época o Brasil vivia uma intensa campanha midiática patrocinada pelos EUA e levada a cabo por empresários brasileiros do setor de comunicações, visando retirar do poder o presidente eleito João Goulart, que era acusado de ser “comunista”. Goulart foi deposto em um golpe no dia 1º de abril de 1964. A partir de então o Brasil entrou em um período de corrupção desenfreada, autoritarismo, terror e tortura, que só terminou em 1985.

Força Pública (atual Polícia Militar) protegendo o Palácio Guanabara no dia 31 de março de 1964.

Força Pública (atual Polícia Militar) protegendo o Palácio Guanabara no dia 31 de março de 1964.

Além de perseguir e prender aqueles que se opunham às suas ideias (o povo sentia tanto medo que era muito comum a expressão: “as paredes têm ouvidos”), a ditadura costumava também controlar o conteúdo dos filmes, das músicas, peças de teatro e dos meios de comunicação, utilizando-se para isso de um mecanismo chamado “censura”. Nenhuma referência contrária aos Estados Unidos, ao governo militar, à repressão e à falta de liberdade, eram permitidas. Somente a ideologia oficial do regime: o liberalismo e a submissão aos interesses dos Estados Unidos.

Em 1973, após lançar o álbum “Clube da Esquina”, Milton Nascimento compôs um novo álbum chamado “Milagre dos Peixes”. No entanto os militares cortaram a maioria das letras das músicas, por as considerarem “subversivas e imorais”. Segundo o próprio Milton:

É claro que as músicas tinham um teor político, mas não era nada explícito. Houve um exagero por parte da censura, porque nunca preguei que o pessoal pegasse em arma e coisa e tal; a gente só botava pra fora o nosso descontentamento com tudo, não só com o Brasil, mas com o mundo. Fiquei puto da vida quando a gravadora me propôs gravar um outro disco. Disse que não, que o disco ia sair como estivesse; se não havia letras, que as pessoas entendessem. E foi uma surpresa pra EMI Odeon em todos os sentidos, porque o disco vendeu bem, fora a repercussão que causou. Como músico, o Milagre foi muito importante, porque foi aí que me larguei na música de uma forma diferente, passei a usar minha voz como um instrumento.

Além de ser censurada pelo governo, o disco também foi censurado pelos empresários. A gravadora inglesa EMI-Odeon vetou uma música deste disco, chamada “Bodas”, porque a mesma denunciava o colonialismo britânico.

Este período de repressão, estado policial e censura só terminou em 1985, a partir da luta da população que foi às ruas exigir eleições diretas e democráticas no Brasil.